A descarbonização deixou de ser apenas uma pauta ambiental do mundo corporativo.
Hoje, ela está diretamente ligada à competitividade, ao acesso a mercados, à atração de investimentos e à gestão de riscos para os negócios.
No entanto, apesar do avanço das metas climáticas e do aumento das exigências regulatórias, muitas empresas ainda encontram dificuldades para transformar compromissos em resultados concretos.
Esses desafios, muitas vezes, nascem da desinformação, do receio do trade-off e da busca por soluções mais enxutas.
É nesse momento que começam os entraves, muitas vezes mais caros do que seguir o caminho correto desde o início.
O ponto de partida: o inventário de emissões de gases de efeito estufa (GEE)
Não há, obviamente, uma “receita de bolo”, pois cada empresa pertence a um setor, varia em porte e possui uma cadeia de valor própria, estruturada para atender diferentes demandas internas e externas.
Há, porém, alguns passos indispensáveis para qualquer organização. Um deles é o inventário de emissões de gases de efeito estufa (GEE), instrumento essencial para a construção de uma estratégia de descarbonização efetiva.
Um aspecto fundamental desse processo é a elaboração de um inventário consistente, capaz de estabelecer uma linha de base (baseline) precisa das emissões da organização.
Essa referência funciona como o ponto de partida para toda a estratégia climática, pois é a partir dela que são definidas metas, priorizadas ações de redução e monitorada a evolução dos resultados ao longo do tempo.
Quando o inventário é elaborado com dados inconsistentes ou excessivamente baseados em estimativas, a empresa corre o risco de adotar metas pouco realistas, direcionar investimentos para frentes menos relevantes e comprometer a credibilidade dos resultados reportados.
Por outro lado, um inventário de qualidade oferece maior segurança para a tomada de decisão, permite acompanhar reduções efetivas de emissões e fortalece a transparência perante investidores, clientes e demais stakeholders.
Ainda assim, quando se fala nessa ferramenta, é comum imaginar que a maior dificuldade esteja na escolha da metodologia ou na aplicação correta dos fatores de emissão.
Embora esses aspectos sejam importantes, a realidade mostra que o principal gargalo da descarbonização costuma surgir muito antes dos cálculos.
Sem informações íntegras e rastreáveis, qualquer estratégia de gestão de carbono perde precisão, reduzindo a capacidade de identificar oportunidades reais de redução de emissões.
É justamente por isso que a qualidade dos dados se tornou um fator determinante para o sucesso de qualquer iniciativa de descarbonização.

Qualidade e confiabilidade das informações
Grande parte das organizações já possui acesso a metodologias consolidadas para elaborar inventários de emissões, como as diretrizes do GHG Protocol. O conhecimento técnico necessário para calcular emissões está amplamente disponível.
O que ainda limita muitos projetos de descarbonização é a qualidade e solidez dos dados colhidos e utilizados.
Dados dispersos em diferentes áreas, planilhas incompatíveis, falta de padronização entre fornecedores e ausência de processos internos de governança tornam a consolidação das informações um trabalho complexo.
Como consequência, muitas empresas acabam recorrendo a estimativas genéricas e médias setoriais.
Embora essas aproximações sejam aceitas em determinados contextos, elas reduzem a precisão do inventário e dificultam a definição de estratégias eficientes para a redução de carbono.
Nesse contexto, sistemas especializados de gestão de emissões desempenham um papel estratégico ao centralizar informações provenientes de diferentes áreas da empresa e de sua cadeia de valor.
Além de reduzir a dependência de controles manuais e planilhas descentralizadas, essas plataformas contribuem para padronizar a coleta de dados, aumentar a rastreabilidade das informações e facilitar processos de validação e auditoria.
Como resultado, as organizações conseguem construir inventários mais consistentes, melhorar a qualidade de seus diagnósticos e estabelecer uma linha de base mais sólida para orientar metas e ações de descarbonização.
O nó da descarbonização: o escopo 3
Segundo o GHG Protocol, as emissões de escopo 3 abrangem todas as emissões indiretas da cadeia de valor, incluindo fornecedores, transporte, uso dos produtos e descarte final.
A complexidade dessa categoria faz com que a qualidade dos dados seja um fator decisivo para a credibilidade do inventário.
Quanto maior a dependência de informações provenientes da cadeia de valor, maior a necessidade de processos estruturados de coleta, validação e gestão dos dados.
É por essa razão que o escopo 3 costuma representar um dos maiores desafios da descarbonização corporativa.
Já está claro, portanto, que entre todos os desafios da gestão de emissões, o escopo 3 costuma ser o mais espinhoso.
Isso acontece porque ele depende de informações que estão fora do controle direto da empresa. Os dados precisam ser obtidos junto a fornecedores, prestadores de serviço, operadores logísticos e até clientes.
Estudos do Fórum Econômico Mundial indicam que, em diversos setores, mais de 80% das emissões corporativas estão concentradas na cadeia de valor. Por isso, o escopo 3 é frequentemente considerado o principal gargalo da descarbonização corporativa.
Na prática, isso significa que não basta medir o consumo de energia ou os combustíveis utilizados internamente. É necessário compreender como toda a rede de relacionamento da empresa gera emissões.
Sem processos estruturados para coleta e validação dessas informações, a qualidade do inventário fica comprometida.
Contudo, como veremos a seguir, algumas estratégias são verdadeiros facilitadores e até catalisadores de processos.
Ações para eliminar gargalos na gestão de dados
A qualidade dos dados é um dos fatores mais importantes para o sucesso da descarbonização.
Na prática, isso exige processos estruturados, como a padronização das informações solicitadas aos fornecedores, a criação de rotinas periódicas de reporte, a capacitação da cadeia de fornecimento e a definição clara de responsabilidades internas.
Além disso, o uso de sistemas de gestão e auditoria contribui para centralizar informações, aumentar a rastreabilidade e facilitar verificações, tornando o inventário de carbono mais preciso.
Em suma, para transformar metas climáticas em resultados concretos, é necessário superar gargalos operacionais e de gestão.
O quadro abaixo reúne as principais medidas para avançar nesse processo e os impactos esperados de cada iniciativa.

Barreiras estruturais
No entanto, alguns gargalos ultrapassam os desafios relacionados à organização e à gestão de dados.
Em determinados setores, a descarbonização esbarra em barreiras estruturais que exigem investimentos, inovação tecnológica e avanços regulatórios para serem superadas.
Entre os principais entraves, podemos listar:
- Acesso a financiamento para viabilizar projetos de redução de emissões e modernização de processos;
- Limitações de infraestrutura, especialmente em logística, energia e transporte;
- Disponibilidade e maturidade de tecnologias de baixo carbono, ainda insuficientes para algumas atividades industriais;
- Dependência de combustíveis fósseis em processos produtivos difíceis de eletrificar;
- Incertezas regulatórias e de mercado, que podem retardar investimentos e decisões estratégicas.
Esses fatores demonstram que, embora a gestão de dados seja fundamental, ela representa apenas uma parte dos desafios enfrentados pelas empresas em sua jornada de descarbonização.
Quando o desafio não está apenas nos dados
Embora a gestão da informação seja um dos principais desafios, ela não é o único gargalo da descarbonização.
Diversos setores enfrentam obstáculos tecnológicos e econômicos que dificultam a redução de emissões.
O Fórum Econômico Mundial destaca que indústrias de difícil abatimento, como siderurgia, cimento, transporte pesado e química, ainda enfrentam desafios relacionados ao acesso a financiamento, infraestrutura e tecnologias de larga escala.
Essas atividades representam quase 40% das emissões globais de GEE.
Energias não limpas: a pedra no caminho
Outro entrave importante é a dependência de combustíveis fósseis para geração de calor industrial. Em muitos processos produtivos, a eletrificação ainda não é economicamente viável.
No Brasil, a infraestrutura logística também influencia diretamente a descarbonização. A forte dependência do transporte rodoviário aumenta o consumo de combustíveis fósseis e eleva as emissões associadas ao transporte de cargas.
Além disso, incertezas regulatórias e diferenças entre mercados de carbono podem retardar investimentos e decisões estratégicas.

Descarbonizar pede governança, além de cálculo
A transição para uma economia de baixo carbono depende de tecnologia, financiamento e inovação. Porém, antes de tudo, depende de informação confiável.
Como vimos, sem dados estruturados, nenhuma metodologia consegue entregar diagnósticos precisos. Mais ainda, sem governança, os inventários perdem consistência.
E, por fim, sem rastreabilidade, as estratégias de redução de emissões ficam comprometidas.
Por isso, um dos principais desafios da descarbonização não está apenas na mensuração das emissões, mas na capacidade das organizações de construir processos que garantam dados de qualidade ao longo de toda a cadeia de valor.
A importância de especialistas capacitados
A experiência da Eccaplan mostra que a combinação entre metodologias consolidadas de inventário, sistemas de gestão de emissões e processos de governança bem definidos contribui para aumentar a confiabilidade dos dados e apoiar a tomada de decisão.
Soluções digitais permitem centralizar informações de diferentes áreas e fornecedores, ampliar a rastreabilidade e facilitar auditorias e verificações externas.
Além disso, iniciativas como a Carbonfair demonstram como a gestão das emissões pode ser integrada a estratégias mais amplas de engajamento climático, conectando mensuração, compensação e comunicação de resultados em uma mesma jornada.
Assim, empresas que investem em governança climática, padronização de informações, capacitação de fornecedores e gestão estruturada de dados conseguem transformar o inventário de emissões em um instrumento de gestão eficiente.
Tornam-se, portanto, capazes de acelerar a descarbonização, fortalecer a competitividade e preparar os negócios para as crescentes exigências de mercados, investidores e da sociedade.
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